Que amor não me engana

Mergulhados na profunda certeza de que o amor não é um lugar estranho, é-nos clara a ideia de que conhecemos devidamente quem temos ao nosso lado, independentemente da idade, do sexo, das crenças. Vivemos a acreditar que estamos conscientes dos prazeres e da alegoria das vivências que procuramos no amor, mais ou menos eternos, tanto que se tornam raros os momentos em que questionamos o outro lado, que nos é difícil acreditar que essa pessoa, de quem tanto se gosta, seja – alguma vez – capaz de nos magoar.
Afinal, aquilo que se procura numa relação é a partilha de uma intimidade que não se tem com mais alguém, de uma confiança profunda – alguém com quem nos podemos verdadeiramente partilhar.
Estava sentada na cama, com o olhar insistentemente vidrado no telemóvel, à espera de qualquer confirmação de que não estava sozinha. Era quando se sentia só que mais pensava em tudo o que de errado se passava, revivia todas as situações, as atitudes que poderia ter tido e as palavras que lhe deviam ter saído nos momentos certos, não fosse aquele terrível nó na garganta que não deixava qualquer palavra passar.
A primeira vez que ele criticou a maneira como se vestia, soou tudo a ciúme miudinho sem importância, uma espécie de confirmação de tudo o que sentia. Ela sorriu, disse para não se preocupar: já que isso o incomodava, iria ter mais cuidado. Quando repetiu a mesma observação, de forma rude e violenta, na frente dos amigos, não conseguiu reagir: a sua face corou, o nó na garganta cresceu de tal forma que as palavras ficaram encurraladas e os olhos, esses observadores daquela cena tão repetitiva, inundaram-se de lágrimas. Não disse nada. Resvalou-se na vergonha e falou com ninguém.

As críticas tornaram-se mais constantes, incessantes, repetidas: parecia que nada era suficiente. Vieram as discussões e libertaram-se os insultos: a ansiedade crescia sempre que fazia alguma coisa sem lhe dizer, ficava nervosa e a disposição entrava numa galopada decadente. Quando se lembrava dele, nesses momentos, a ansiedade atacava-a de tal forma que se tornava num calafrio que lhe percorria o corpo, um enjoo incontrolável e, como que de repente, sentia-se inundada por um profundo sentimento de culpa. Foi assim que deixou de combinar sair com os amigos – estar com ele tinha de ser suficiente, esses eram os únicos momentos em que não se sentia apreensiva, não teria de lhe esconder o que ia fazer e consequentemente, não precisava de ter medo da reação que a esperava se ele descobrisse que tinha saído sem lhe dizer.
Estava sentada na cama, sentia-se sozinha, isolada do mundo. E perguntava-se quantas vezes deveria ter dito que não. Agora não tinha alguém com quem falar, tinha afastado toda a gente: alguns porque ele não gostava, outros porque tinha vergonha. Não percebia por que é que só se conseguia lembrar de tudo isto quando estava só.

O telemóvel tocou: pelo menos tinha-o. E ele amava-a, certo?

 

Este texto foi apresentado no dia 24 de novembro de 2016 na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, a propósito da campanha “Inquieta-te com a violência na intimidade”.

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