Um Abuso de Linguagem

Antes de partirmos para a crónica propriamente dita, faça-se um pequeno exercício do pensamento: numa sala de aulas com cem estudantes, noventa e oito raparigas e dois rapazes, o docente tem necessidade de se dirigir a toda a turma. Surge, então, a dúvida: que vocativo utilizar? A gramática é clara e mandata que se empregue “alunos”, por corresponder, em português, o masculino à forma neutra. Contudo, recentes movimentos pela igualdade de género advogam a forma “alunas e alunos”. Em que ficamos?

O Brasil foi, até à recente destituição de Dilma Rousseff, governado por uma “Presidenta”, o Cartão de Cidadão deveria passar a “Cartão de Cidadania” e Marcelo é o Presidente de todos os “portugueses e portuguesas”. A emancipação feminina chegou, por fim, à língua portuguesa. Talvez. Ou não?

Todos estes novos usos têm a sua base numa única premissa: “o uso da forma masculina enquanto género neutro encerra em si uma profunda discriminação”. Este postulado semelha-se-me como claro e facilmente aceitável. Sucede, contudo, que se pode inverter e daí surge uma conclusão completamente diferente: “o uso da forma neutra enquanto género masculino encerra em si uma profunda discriminação”, porque, afinal, enquanto a forma feminina goza de diferenças ortográficas em relação aos demais géneros, o masculino não tem direito a essa diferenciação. O português seria, assim, uma língua matriarcal, ao invés de machista. E agora?

A resposta rápida, que sabemos que o leitor facilmente deduziu, é que o segundo postulado é falacioso, na medida em que o género neutro derivou da forma masculina das palavras e não o contrário, como se quer fazer parecer. E nisso tem toda a razão. Esta falácia, porém, é útil, na medida em que realça a importância dos pontos de vista e começa a alertar para o erro do falso dilema: “ou se usa o género masculino, ou se usa o género feminino”.

Afinal, porque é que, exatamente, o uso da forma neutra, correspondendo ao género masculino, é discriminatório? Porque é que dizer “a Presidente Dilma”, “o Cartão de Cidadão” e “o Presidente de todos os portugueses” encerra em si tão profunda discriminação que leva à necessidade de alterar as próprias fundações gramaticais da língua? A perspetiva histórica remete-nos para as relações de poder e para o patriarcado heterocisnormativo dominante, que se traduziu na preferência pela forma masculina das palavras. Esta linha de pensamento, porquanto interessante, peca por imprecisão: há um excesso de línguas que só apresentam um género para a maioria das palavras, como o inglês, e outras que incluem três géneros ortograficamente distinguíveis, como o alemão. Sendo as sociedades dos dois exemplos referidos, tal como a portuguesa, tradicionalmente patriarcais, perde tração a perspetiva histórica. Estando excluída esta possibilidade, que outras avançam?

Somos da opinião que o constante recurso à forma masculina como género neutro é discriminatório, tão-somente porque não seria bem aceite fazer-se o mesmo com a forma feminina. Retomemos, portanto, o exercício primordialmente proposto. Propositadamente, incorreu-se na falácia da falsa dicotomia: apresentaram-se apenas duas opções (ou o docente se referia à turma como “alunos”, ou empregava o pleonasmo “alunos e alunas”), quando na verdade havia uma terceira. Porque não, haja em vista tão grande maioria de raparigas em relação aos rapazes, dirigir-se o docente a toda a turma como “alunas”? Se o caro leitor se sente incomodado por esta perspetiva, saiba que é aí, exatamente aí, que reside a discriminação que vimos tratando.

O problema não se resolve ao nível gramatical, como muitos parecem crer. O uso da expressão “alunos e alunas” é pleonástico e quase encerra em si ares de superioridade moral, porque, como referiu Miguel Esteves Cardoso, sublinha a necessidade de se referir especificamente as mulheres para fazer uma clara afirmação de inclusividade, como se ela não fosse mais do que uma moda do discurso político. Pelo contrário, o cerne da questão está no facto de muitos homens ainda se sentirem profundamente insultados quando se referem a eles pelo género feminino. Os nossos dois estudantes do exercício não se incomodariam que o docente se referisse à turma pelo vocativo “alunos”, perdoar-lhe-iam, até, o hediondo “alunos e alunas”, mas ficariam, certamente, inconformados se os incluíssem no rol das “alunas”.

Neste caso, o que há a combater não é a gramática, que merece, pelo contrário, a preservação da sua centenária tradição. Até porque, se isso se fizesse, seria uma questão de tempo até surgir uma resposta adversa: “então e os dentistas? Não têm direito a serem chamados dentistos? E a liberdade, a cidadania e uma miríade doutras palavras que só existem na forma feminina, não devem ter, agora, o equivalente masculino?”. No fim de contas, a discriminação é uma estrada de dois sentidos e a língua não se muda por decreto.

Muito mais produtivo e justo será trabalhar numa mudança de mentalidades, removendo, assim, qualquer necessidade de se levantar esta questão. No dia em que os homens não se sentirem incomodados por serem chamados pelo feminino, assim como as mulheres não se sentirem incomodadas por serem chamadas pelo masculino, este problema tornar-se-á redundante e desnecessário.

O género gramatical não é mais que isso, uma mera estrutura da língua, útil no diálogo, é certo, mas não normativa. Não há discriminação na gramática e a mera ideia disso é estranha e incompreensível, porque ela é orgânica e evolui com o uso – não tem propósito ou objetivo, não é orientada, e impor-lhe o semblante discriminatório seria conferir-lhe, afinal, um objetivo. A discriminação mede-se nas atitudes e nos usos. Em tornando-se o masculino e o feminino verdadeiramente semelhantes, equivalentes em igualdade e dignidade, não causará estranheza que se use um no lugar doutro, porque, qual equação matemática, prevalecerá a equivalência.

Por isso, abandone-se o horror gramatical de “alunos e alunas”. Use-se só “alunas”, porque o valor intrínseco das palavras não está na letra que lhes mandata o género, mas na interpretação de quem as ouve. E se a interpretação é errada, é ela que tem que mudar, não são as palavras.

Deixar uma resposta